NOVO MANIFESTO PELA FEDERALIZAÇÃO DOS CRIMES DE MAIO, E FIM DA "RESISTÊNCIA SEGUIDA DE MORTE"

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

A continuidade do genocídio negro através da Política Criminal de Segurança Publica na Bahia


Abertura do I Encontro Popular por uma Outra Segurança Pública - Pela Vida (Salvador, 2009)

Verão, Jan, 2011.

A continuidade do genocídio negro através da Política Criminal de Segurança Publica na Bahia
Vão-se os anéis, ficam os dedos!

Por Lio Nzumbi*.

“Eu queria rimar a paz, mas o que vivo não me permite/ então narro sem corte a dor no barraco de madeirite.../ o esgoto que corre na frente de casa não nos inspira riso/o filme de nossas vidas ainda é de fim sofrido/perda de ente querido/ irmão furado em “troca de tiro”/o luto da Tia preta que viu a policia matar seu filho.../ a enfermidade da filha caçula ao saber que seu pai foi morto.../o desmaio da mulher no reconhecimento do corpo.../é sempre assim, sem ibope a morte de um dos nossos/ sem reconstituição de crime/ varias famílias choram seus mortos...´/ é só enterro como indigente/ matéria no jornal como delinqüente(...) mas aqui é “Nóix por Noix””, só nós, “por nós mesmos”, por Nós: dos pretos, para os pretos, com os pretos e pelos pretos...”
[ A cria rebelde, 157 Nervoso.]


Mães de Maio (SP) e Rede Contra Violência (RJ) participam do I ENPOSP, na Bahia (Salvador, 2009)


Conforme já tivemos a oportunidade de demonstrar (Nzumbi, 2010[1]), a política criminal do Estado brasileiro, travestida historicamente sob a função anunciada de “segurança publica” e armada pelo aparato de controle penal e o poder estatal de policia, empreende, deliberadamente, através de todos os poderes deste Estado, um processo seletivo (discriminatório e/ou discricionário) de criminalização, que por sua vez, adota critérios sócio-raciais para eleição de um padrão de sujeitos a se suspeitar, perseguir, penalizar e enfim eliminar: jovens negros. Se assimilarmos a semântica dada pelos dicionários da língua portuguesa, o termo “genocídio” significa “eliminação de um povo”, de um determinado tipo de gente[2]. Em nossa análise entendemos ainda que este processo de criminalização resulta em duas formas históricas e flagrantes de genocídio no Brasil: a execução sumária, empreendida pela polícia e grupos para-policiais e o encarceramento massivo de jovens negros.

A análise sobre política criminal travestida como segurança pública na Bahia permite entender que o sistema penal brasileiro tem como resultado de seu caráter seletivo e racista, as formas mais diretas de genocídio do povo negro; entender ainda que este genocídio estrutura o modelo de Estado brasileiro e se apresenta como realidade nacional no âmbito de todos os seus poderes; e que, como estrutura, tal modelo de estado, está para além da conjuntura, ou seja, não é uma questão que marca apenas um ou outro governo; é uma questão que marca a prática política e a ordem social sustentada historicamente por este modelo de Estado. Segundo o dicionário Aurélio o substantivo genocídio [De gen(o)-2 + -cídio.] significa:

Crime contra a humanidade, que consiste em, com o intuito de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, cometer contra ele qualquer dos atos seguintes: matar membros seus; causar-lhes grave lesão à integridade física ou mental; submeter o grupo a condições de vida capazes de o destruir fisicamente, no todo ou em parte; adotar medidas que visem a evitar nascimentos no seio do grupo; realizar a transferência forçada de crianças dum grupo para outro.

Na realidade vivenciada por comunidades negras em ruas, favelas e prisões na Bahia é possível se flagrar qualquer uma destas hipóteses anunciadas. De fato, já não há meio possível de velar a face genocida da atual política de segurança pública na Bahia. Para entender o cenário desta política, é necessário analisar os discursos e contra-discursos - cada um dos mecanismos e estratégias utilizadas para legitimar ou enfrentar o processo de criminalização a qual nos referimos.

A Secretária de Segurança Pública e a manipulação de informações sobre os “indicadores de violência”.

A SSP-Ba (Secretaria de Segurança Pública da Bahia) anunciou recentemente a aplicação de cerca de 110 milhões de reais só na ampliação da sua frota - 1.332 viaturas - motocicletas, caminhões, automóveis, rabecões, carros-presídio, além de um helicóptero. Na mesma oportunidade, como uma tentativa de maquilar dados e desviar a atenção da opinião pública sobre a carnificina empreendida por sua polícia em Salvador e região, o então secretário de segurança pública anunciou também o que representaria, segundo ele, a redução dos principais índices de violência ocorrida durante a sua gestão (SSP-BA, 2010)[3]. Menos de um mês depois, a imprensa divulga números alarmantes, sobretudo no que toca às execuções sumárias empreendidas contra jovens negros - o que na opinião rasa dos jornalistas, fez titubear o titular da pasta de segurança pública e enfim, depô-lo para que se assuma um técnico com uma imagem menos desgastada.

Por outro lado, a análise sobre os números permitem verificar toda ferocidade resultante da política de segurança publica e também exigem a apreciação de um olhar técnico diferenciado dos diagnósticos estatísticos disponibilizados pelo sistema de informações da SSP. Órgãos da SSP, por exemplo, divulgaram que a “intensificação do combate ao tráfico de drogas e a renovação da frota de viaturas das polícias Militar, Civil e Técnica, incluindo a aquisição de mais um helicóptero para o Grupamento Aéreo da Polícia Militar (Graer provocaram o declínio dos principais índices de violência. Durant a apresentação feita pelo secretário César Nunes, a SSP atribuiu à ampliação do efetivo da Polícia Militar a razão através da qual se realizou tal redução nos índices de violência em Salvador; Alardeou com o entusiasmo de um vendedor os números que lhe interessava mostrar, mas de fato, o que tentava vender era o seu modelo de gestão como algo que dá certo. Então disse orgulhoso sobre a sua gestão: “O ano de 2010 foi de continuidade dos programas e projetos estabelecidos no Plano Estadual de Segurança Pública, que começaram a ser implantados em 2008, quando assumimos a SSP”. Na mesma oportunidade, Nunes exibe alguns números por ele destacados em 2010: Foram mais de 1,7 toneladas de maconha, cerca de 500 quilos de cocaína e 433 de crack retirados de circulação durante operações e revistas de rotina[4].

Apesar de não oferecermos aqui uma análise fundada na frieza dos dados estatísticos, a lida com a questão criminal aqui na Bahia também nos fez aprender a analisar os números. Na contramão do que foi propagandeado pelo Governo, diversos indicadores, demonstrados através de fontes confiáveis de pesquisas, revelam o genocídio em curso na Bahia. Segundo o relatório Saúde Brasil 2009[5], Salvador é a quarta capital do país com o maior número de homicídios. Em 2008, a taxa de homicídios, principal indicador da violência, alcançou o patamar de 57,1 mortes por homicídio a cada 100 mil habitantes. Ao pensar na Região Metropolitana de Salvador, a situação não é mais animadora. De 2000 a 2007, a taxa de homicídios variou de 11,6 para 50,4 mortes por cem mil habitantes - segundo outro estudo, o Mapa da Violência[6], publicação feita com base em dados do Sistema Único de Saúde (SUS), um aumento de 400% no número de homicídios. De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, 4.796 pessoas foram assassinadas no Estado em 2009 – 48,9% a mais do que em 2006[7]. Salvador fechou o ano de 2009 com 57,8 homicídios para cada 100 mil habitantes – cinco vezes a taxa da capital paulista e quase o dobro da registrada na cidade do Rio de Janeiro. Apesar de a Secretaria de Segurança Pública da Bahia comemorar a redução dos índices de violência na capital e interior, um dos principais indicadores, o número de homicídios dolosos (quando há intenção de matar) cresceu em comparação com o mesmo período do ano passado. De janeiro a novembro de 2009, foram registrados 4.340 homicídios em todo o estado. Já em 2010, no mesmo período, ocorreram 4.420 homicídios. Quando falamos da realidade nacional fazendo um recorte de raça, os números assustam ainda mais. A Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República demonstra através do (IHA) Índice de Homicídios na Adolescência, que o risco de um jovem negro ser assassinado cresceu no país, chegando a uma probabilidade quase 4 vezes maior em relação a um jovem branco.[8] Vários setores racistas da elite brasileira se manifestam severamente contra as cotas raciais, mas apenas se manifestam no que se refere à universidade e outros espaços de poder. Nada falam, por exemplo, ao saber que a reserva de vaga no cemitério dos assassinados é de 130 % a mais para jovens negros[9].

Para além de um teatro em qual o gestor tem que forjar, através da manipulação de dados, uma conjuntura minimamente aceitável para a imprensa, se verifica não apenas em Salvador e Região Metropolitana, mas em todo território nacional, a manutenção de uma política ostensiva de criminalização e dizímio da juventude negra através da parafernália penal do Estado brasileiro. A matemática oficial, por si só, não dá conta de fazer uma análise confiável dos fatos, nem é capaz de decodificar a dor sentida por mães negras que choram sobre os corpos de seus filhos. Apesar da maioria dos jornais entenderem que os índices de violência “derrubaram” César Nunes, é necessário dar atenção a outra perspectiva de analise: a das pessoas vitimadas por esta “maquina de moer gente” travestida de “segurança publica”.

Segurança Pública na Bahia - Discursos e contra-discursos – pedaço de uma realidade nacional.

Enquanto a política executiva é reordenada nos bastidores dos estados e no governo federal, a política de desenvolvimento consolidada como “PAC” tem exigido para segurança pública uma demanda de controle social condizente ao status de um ”país emergente”. Então, o Brasil, através de sua política governamental de segurança (O PRONASCI, SUSP etc.), para sustentar a fama internacional de “país em vias de desenvolvimento”, tem lançado mãos de inúmeros mecanismos de gestão que resultam na morte e/ou criminalização sistemática de um determinado tipo de gente. Esse “tipo de gente” pode ser conhecido no perfil que agrega a clientela principal do sistema carcerário: jovens negros, oriundos de territórios guetificados (Favela).

Em inúmeros momentos de intervenção social foi denunciado o caráter fascista da administração de César Nunes. Já em 2008, frente o ímpeto de um gestor que nega a competência de “segurança publica”, “caça” suspeitos e se auto-proclama gestor da “secretaria de policia”, a Campanha Reaja! se posicionou. O caráter notoriamente neo-lombrosiano e fascista foi expresso em mega-operações como “saneamento 1” e “saneamento 2” e outras intervenções policiais, em quais, se verificou o falseamento de provas, a exposição gratuita e imoral da imagem de suspeitos (criminalização midiática) e execuções sumárias empreendidas por representantes legais do Estado. Inúmeras denúncias foram encaminhadas para o Ministério Público, para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores da Cidade de Salvador e Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa. A Secretaria Nacional de Direitos Humanos, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e até mesmo a ONU foi através de um dossiê que reunia dados emblemáticos de criminalização e/ou execução sumária[10]. A CONSEG (Conferencia Nacional de Segurança Pública) também foi denunciada como um jogo de cartas marcadas, cujo fim primordial foi legitimar o PRONASCI, uma política de segurança aliada a interesses particulares. O ENPOSP (Encontro Popular pela vida e outro modelo de Segurança Pública) estabeleceu um contraponto social importante frente à lógica genocida de segurança pública em curso no Brasil.[11]
No campo acadêmico, os gestores em segurança pública não podem dizer que desconhecem a existência de perspectivas cientificas geradas no seio do movimento social. Dra Andréia Beatriz, médica e professora da UEFS ao desenvolver seu estudo sobre a identificação da raça/cor da pele no Instituto Médico Legal de Salvador[12], verificou que “a mortalidade no Brasil aumenta conforme se escurece a cor da pele” e aponta a existência de um tal “racismo institucional” como caráter da ação governamental. Resta saber se esse tal “racismo institucional” pode ser entendido como uma ação dolosa dirigida deliberadamente pelo Estado ou se podemos entendê-lo como simples “falha” do sistema em prover direitos. Para a advogada e doutoranda Ana Luiza Flauzina não se sustenta a idéia de que o sistema penal brasileiro está falido quanto ao exercício de sua função principal, pois a tal ressocialização além de não ser identificada como resultado direto da pena de cárcere, não pode ser identificada tão pouco como fim último deste sistema de controle. Esta perspectiva criminológica demonstra ser bastante elucidativa em sua abordagem:

È mesmo importante compreender que o racismo é uma marca de nascença irremovível do sistema penal brasileiro. Digamos de maneira direta: o sistema penal age com tamanho grau de brutalidade e violência porque foi um instrumento pensado para controlar os corpos negros, na lógica de desumanização que o racismo impôs como regra. [...] O desgastado discurso da “falência do sistema penal” perde, portanto, qualquer sorte de credibilidade. O sistema funciona e funciona bem. Funciona para os fins para que foi concebido: manter as pessoas onde estão.Mais especialmente, funciona para assegurar os termos de nosso pacto racial, auxiliando na disposição de negros e brancos em espaços concretos e simbólicos diferenciados[13] (FLAUZINA, 2006)

A discussão sobre a intencionalidade de matar (dolo) como marca do processo de criminalização que aqui analisamos evidencia que estamos de fato tratando de um processo histórico de genocídio, ainda que a tecnocracia jurídica continue entendendo o termo como inapropriado[14] . Munida do arsenal de dados acumulados entre 2007-2009 pela Campanha Reaja ou será mort@!, a socióloga Vilma Reis revelou parte deste processo e denunciou em depoimento à CPI da violência urbana o “auto de resistência” utilizado como artefato jurídico-policial que licencia a execução sumária de jovens negros; denunciou os programas de televisão além do PRONASCI que deve aplicar milhões na compra de armamentos, viaturas e construção de novos presídios até 2012[15]. Perspectivas análogas foram também reiteradas vezes colocadas pelo militante negro e professor Hamilton Borges, deixando-nos a certeza de que o dolo genocida, a intenção de matar e/ou criminalizar jovens negros é um principio intrínseco à ordem social brasileira[16]
No entanto, na conjuntura política do ano de 2010, mesmo os setores do movimento social que se posicionam frente à política criminal de César Nunes, não conseguiram fazer reverberar as suas vozes no cenário político e foram silenciados, quando não penalizadas com o isolamento político ou pela criminalização propriamente dita. No entanto, não deixamos de apontar inúmeros casos emblemáticos, constando entre os vários exemplos de ação dolosa e/ou culposa do Estado em casos de execuções sumárias e/ou aplicação de pena extralegal os seguintes fatos acontecidos em 2010:

· Na madrugada do dia 29 de fevereiro dez policiais militares executaram 11 jovens e deram sumiço nos corpos de três adolescentes em Vitória da Conquista. Os assassinatos atribuídos aos PMs ocorreram entre os dias 28 e 29 de janeiro como conseqüência da morte do soldado Marcelo Márcio. Entre a noite e a madrugada do dia seguinte, policiais militares invadiram casas sem mandado judicial, agredindo pessoas, seqüestrando e executando sumariamente suspeitos, dentro das residências e em vias públicas. Os policiais acusados estão lotados no 9º batalhão de polícia militar (BPM /Vitória da Conquista) e na companhia de ações especiais do sudoeste e gerais (CAESQ/ PM);
· Na noite de 4 de março, através de uma ação conjunta realizada pela 37ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM) e a Rotamo, agentes do estado realizaram uma chacina que culminou na execução de sete jovens no bairro de Pero Vaz. Estas sete pessoas foram encurraladas e sumariamente abatidas a partir da justificativa de que a referida incursão policial teria sido enfrentada com tiros por estes jovens.
· No dia 4 de outubro, a PM matou dois membros do grupo de rap BKS numa revista em Itapuã. André de Jesus Cardoso foi morto naquela madrugada de segunda-feira ao lado do companheiro de grupo, Tiago Santos Silva. Os jovens, que tiveram suas promissoras vidas interrompidas aos 20 anos de idade, teriam, segundo a polícia,“furado uma blitz e acabaram sendo mortos em confronto”. No entanto, pessoas da família e da comunidade dos jovens negam a versão da polícia e dizem que os jovens foram sumariamente executados;
· No dia 23 de outubro, no assentamento Dom Helder Câmara, situado no distrito de Banco do Pedro, em Ilhéus a Sra. Bernadete Souza Ferreira dos Santos foi vítima de uma sessão de tortura cometida por oito policiais militares. Bernardete conta que estava em companhia de seu marido, o professor de Filosofia Moacir Pinho de Jesus, quando os policiais chegaram na comunidade com um jovem algemado. Ela e o companheiro questionou a presença dos PMs alegando que estes só poderiam estar mediante mandato judicial, já que a área do assentamento é protegida por legislação federal. Testemunhas contam que ao ser detida por desacato à autoridade, o orixá Oxossi respondeu incorporando a Sra. Bernadete. Ainda assim, os policiais imobilizaram o corpo de dona Bernadete, pisando-lhe o pescoço e submetendo-o a uma sessão de tortura sobre um formigueiro;
· 21 de novembro de 2010- O garoto Joel Castro foi alvejado por uma bala ponto quarenta enquanto se preparava para dormir dentro de sua casa. A imprensa, em consonância com informações da polícia, a princípio noticiou que o garoto teria sido vitima de “bala perdida”. No entanto, o fato é que um projétil de arma de fogo adentrou o rosto do menino, atravessou o cérebro e se instalou em seu crânio. Esse menino teve interrompido seu sonho de se tornar mestre de capoeira. O pai da criança ainda saiu com seu filho desesperado para pedir socorro. Talvez salvasse seu filho se policiais das 40 CPM não o negasse socorro. Apesar do secretario César Nunes ter derramado lágrimas de crocodilo na reconstituição do crime, os laudos periciais do Departamento de Polícia Técnica (DPT) confirmaram que o tiro que matou o menino saiu da pistola calibre 40, usada pelo soldado da Polícia Militar Eraldo Menezes de Souza, lotado na 40ª CIPM (Companhia Independente da Polícia Militar). Este e outros nove policiais estão afastados do serviço, até a conclusão do inquérito; Dentre quais, os soldados Leonardo e Santana, identificados diretamente pelo pai da criança como os agentes policiais que negaram socorro para seu filho.
Como já dissemos outras vezes (Nzumbi, 2009), a manutenção de uma lógica específica de segurança pública mantém também intacto o mesmo projeto de estado baseado no genocídio histórico de populações negras favelizadas[17]. Jornais da imprensa confirmaram a manutenção desta lógica ao anunciar que os índices de violência “derrubaram” o secretário de segurança pública. Para além do olhar frio dos técnicos, para além do que é ou não divulgado pela imprensa, está em curso um processo ininterrupto de genocídio confirmado em cada corpo negro caído no chão. Tal processo é validado por uma lógica de guerra contra o “trafico de drogas” ou ao “crime organizado”. Matar jovens negros paridos de uma sociedade que os rejeita precisa de uma justificativa por parte dos técnicos e gestores. Por isso é que os números e a visão de jornalistas são priorizados em detrimento ao que se vivencia nas comunidades faveladas e prisões do país. O fim anunciado pelo sistema penal brasileiro de combater o crime e regenerar infratores é na realidade uma justificativa retórica, apenas uma argumentação que busca legitimar uma ordem político-social baseada na criminalização de jovens negros (Nzumbi, 2008) [18]. Tal fenômeno corresponde a um pressuposto sempre presente em nossas análises sobre a política criminal na Bahia: que entende que a criminalização, o extermínio e o encarceramento massivo de jovens negros geram poder político e econômico para as elites do país. Quer dizer, alguém sempre lucra com a morte ou prisão de um favelado... e não são apenas corporações empresariais -imprensa policial, indústria armamentista, empresas de gestão penitenciária, milícias armadas- e as elites políticas que ganham. Até mesmo a própria questão entendida por alguns setores contra-hegemônicos como “extermínio da juventude negra” é passível de se tornar produto de ganhos políticos e econômicos através dos apelos das ONG’s de Direitos Humanos e demais organismos do chamado terceiro setor. O corpo negro engavetado no Nina Rodrigues pode neste sentido, ser a moeda de troca para consultorias de fundações internacionais, especialistas em “negociação de conflitos” e tutorias de projetos sociais que vendem a manutenção do genocídio sob o rótulo de caridade, solidariedade ou “responsabilidade social”. Prato cheio para iniciativa privada![19]

Para a imprensa policial de rapina, quanto maior parecer aberração de cada caso anunciado, maior o lucro da manchete, visitada e revisitada milhões através da internet. Mas para quem perdeu um membro de sua família ou comunidade como resultado da ação e/ou omissão de agentes do Estado a conjuntura nacional de segurança pública pode ser entendida hoje sob a forma de um veículo blindado atirando contra membros descamisados de uma comunidade que não conhece nenhum tipo de intervenção estatal, senão a da policia. De fato, a violência é uma linguagem universal, todos entendem. Não foi à toa que as grandes corporações midiáticas exibiram e reprisaram milhares de vezes a ocupação do Morro do Alemão no Rio de Janeiro. Bombardeiam maciçamente em canais de radio, TV e internet a opinião pública com imagens que tentam convencer que há em curso uma espécie de “guerra contra o mal” que conta com o apoio total da população. Nessa representação “o bem” é simbolizado pelas grandes corporações empresariais e o governo e ‘o mal’ simbolizado por um homem negro descamisado que foge diante de um aparato de guerra com imensos poder de destruição. O texto do Artigo 5 da Constituição brasileira é suficientemente nítido. No inciso XLVII se diz que “não haverá a pena de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, XIX". O que não é tão nítido assim é o modo como o Estado contando com a parceria das grandes corporações midiáticas justificam, banalizam e promovem execuções sumárias televisionadas ao vivo para que a população favelada se posicione favorável à sua própria eliminação.

Um mês depois da ocupação do Alemão no Rio de Janeiro, nesse mesmo estado, até o dia 27 de janeiro de 2011, a Polícia Civil contabilizou 837 mortos, segundo eles, “vitimas da chuva”. Aprendemos com o furacão Catrina e com os terremotos no Haiti que quando um fenômeno da natureza que ameaça a vida humana pode ser previsto, a tragédia não é necessariamente uma “catástrofe natural”. Comentários de jornalistas racistas afirmaram, por exemplo, que o Haiti ao ser devastado pelos tremores de terra, estava sendo castigado pela pratica de “macumba”. Mas agora o que podemos dizer da região serrana do Rio de Janeiro? Especialistas comentam que a tragédia foi inúmeras vezes prevista, já que as cidades demonstravam ter óbvios problemas de infra-estrutura para enfrentar a elevação dos índices pluviométricos. Mas o governo não gastou sequer um centavo para intervir numa questão tão séria de Defesa Civil. Realmente uma tragédia como essa provoca comoção em todo mundo. Mas não teve comoção nacional quando se soube que segundo a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, através do (IHA) Índice de Homicídios na Adolescência, 32.912 adolescentes serão assassinados entre 2007 e 2013[20]. Realmente a tragédia das enxurradas é comovente, mas porque a Viva Rio e essas ONGs que estão tão empenhadas em arrecadar recursos não pressionam a Secretaria Nacional de Defesa Civil, Secretaria Especial dos Direitos Humanos e a presidenta para que se gaste os recursos do PRONASCI nesse caso? O que parece é que a concepção de segurança publica se resume em armas, policia e grades para o governo e a desgraça de muitos é um negócio rentável para as ONGs.
Não é a toa que a PM da Bahia ganhou seu primeiro “Caveirão”. O carro blindado chamado tecnicamente de “veículo de apoio tático” (VAT) e apelidado pela própria polícia baiano como “o miseravão” estará à disposição do Batalhão de Choque da PM para incursões em comunidades de favelas daqui da Bahia. Jornais da imprensa escrita de Salvador informaram que “a aquisição do veículo é também uma das medidas do protocolo de intenções que propiciam à Bahia ter Salvador como sede de eventos esportivos internacionais, a exemplo da Copa das Confederações, em 2013, da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas de 2016.” Confirmando a lógica da política nacional de segurança que o governo Dilma pretende apoiar, o governo federal informa que parte do recurso do PRONASCI será investida nessa tal “política de pacificação” das comunidades de favelas. Já se anunciou que as polícias do Rio de Janeiro irá receber uma nova frota de veículos blindados, além dos tanques da Marinha e os seis caveirões já em uso na ocupação no Complexo do Alemão[21].
Aqui na Bahia, como primeira ação prática, Maurício Telles, o novo gestor da pasta de segurança pública, anuncia que quer implantar na Bahia o sistema das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), que estão em funcionamento no Rio de Janeiro. Alega que com as UPPs será possível avançar em áreas que estão atualmente “sob o domínio do tráfico de drogas” reproduzindo um discurso deslocado de segurança pública que não tem o menor sentido em Salvador. Mesmo que o tal “crime organizado” não estabeleça nenhum “Estado paralelo” capaz de trocar tiro com tanques blindados de guerra e helicópteros, as policias e as forças armadas brasileiras precisam gastar suas balas, precisam buscar mais “clientes” para o sistema prisional. Para além das atividades pontuais engendradas pela política criminal brasileira, além do modelo de segurança publica demando pelo PAC e pelo PRONASCI, há uma agenda de faxina sócio-racial a ser cumprida para preparar as capitais brasileiras para grandes acontecimentos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. A análise sobre os meses que antecedem o carnaval na Bahia, por exemplo, demonstram uma sensível oscilação nos principais índices de violência; quase sempre o numero de homicídios dolosos duplicam em relação a outros meses do ano. Não temos fórmula estatística capaz de prever o aumento do número de corpos negros gerados para abrigar eventos com a magnitude anunciada para copa do mundo em 2014 ou as olimpíadas em 2016.
Não são apenas os executivos, federal e dos estados, os setores do poder público que engendram políticas criminais. O legislativo seja em âmbito, federal, estadual ou municipal também exerce a sua influência sobre o funcionamento da Maquina Penal. No senado, por exemplo, os parlamentares acenaram positivamente para as recomendações do relatório do senador Renato Casagrande (PSB-ES) sobre o projeto de reforma do Código de Processo Penal (PLS 156/2009) em sessão extraordinária. Enquanto a matéria ainda não chega na Câmara dos Deputados, a proposta corre o perigo de não ser submetida a apreciação da sociedade civil e ser influenciada pelos lobbies das grandes corporações até ser sancionado pela presidenta. Através de tal legislatura se regulará prerrogativas de novos postos do judiciário criminal, o uso das tecnologias de segurança entendidas como mais avançadas e outras novidades. Um prato cheio para os advogados criminalistas de porta de cadeia que almejam ascender profissionalmente e para as empresas de segurança e administração que certamente lucrarão milhões em monitores, julgamento por vídeo-conferência e outras parafernálias previstas como efeitos da aplicação do novo Direito de Processo Penal brasileiro.
Para a doutrina jurídica, o Direito Penal seria a “Ultima ratio”, a aplicação da pena quando todos os outros direitos falharam. Mas quando se pensa na realidade vivenciada em ruas, favelas e instituições penais pela comunidade negra deste país, verifica-se que o Direito Penal, a política de segurança e todas as armas chegam antes que qualquer outro direito. Aonde não chega a saúde, a educação, o trabalho/emprego e renda, chega a polícia, os grupos paramilitares e as armas de uso exclusivo do exercito. Os principais destinatários do direito prisional são oriundos de territórios de esgoto a céu aberto, nenhum posto público de saúde ou escola pública com fornecimento regular de merenda. E essa sentença não é conjuntural, faz parte da estrutura de estado e da própria história brasileira. O uso da violência com fins de controle social assegura a manutenção da ordem social e faz todo sentido em Salvador: metrópole brasileira de maior concentração de negros favelados por metro quadrado, cidade detentora dos mais expressivos indicadores de desigualdade sócio-racial e criminalização de jovens negros. No entanto, não perdemos de vista que esta lógica se mantém como uma política de orientação nacional. Setores governistas falam que “outros ramos da vida pública não estão tão mal assim. Afinal, temos reserva de cotas em universidades e uma classe média negra emergente, com plenos poderes de comprar um carro zero, a perder de vista”. Matar jovem negro então seria ,segundo esta lógica, conseqüência da “governabilidade”. Mas os técnicos do governo esquecem que sem o direito à vida não se pode gozar nenhum outro direito. O desenvolvimento tem que ser integral, tem que se verificar em todos os âmbitos de nossas vidas. Os jovens negros de Vitória da Conquista, Pero Vaz, Nordeste, Alto do Coqueirinho, Cajazeiras e outras comunidades da periferia baiana, não terão oportunidade de gozar das políticas de ação afirmativa ou das tão prometidas benesses do PAC se forem assassinados pela polícia ou cumprirem pena numa instituição prisional a maior parte de suas vidas.

A política criminal “de tolerância zero” e a “guerra contra o terror” são produtos importados da tecnologia de segurança norte americana que devem ser adotados pelo Brasil se quiser manter o diploma da ONU de “país emergente”. Não é à toa a idéia de implementação de políticas como privatização do sistema prisional, julgamentos por videoconferência e o regime disciplinar diferenciado RDD no Brasil. O jovem negro descamisado de fuzil na mão que hoje se coloca como inimigo público muitas vezes não conheceu nenhuma outra intervenção governamental fora a da polícia no bairro onde nasceu, mas agora tem câmera digital, rastreamento de celular, escuta telefônica, veículo blindado, tanque de guerra...e todas as tecnologias das forças armadas brasileiras voltadas contra ele. E não há nenhum privilégio revervado para qualquer “facção criminosa”. Não há “poder paralelo”, ou “toque de recolher “capaz de barrar este processo genocída de criminalização que invade a chamada “pós modernidade” como um blindado passando sobre o corpo de uma criança negra-favelada. Na “Bahia de todos nós”, se disser “Êa!”, vai virar peneira... se disser que “Éh Noix!” vai ser bagaçado do mesmo jeito. Estudos antropológicos identificam vários times de futebol, várias linguagens, várias gírias, vários sonhos entre jovens negros de favela... Mas quando o inimigo fardado chega, a bagaceira é uma só. Independente de muitos destes jovens negros verem o perfil de seus semelhantes como “alemão” (inimigo), todos estes são vistos da mesma forma pela atual política nacional de segurança: um dejeto da ordem social brasileira que tende a ser eliminado ou escondido através das trancas, de preferência antes da copa de 2014, pro sangue não espirrar na cara dos gringos.

Distante da visão analítica se opera um genocídio sem prazo de término. Para aqueles que estão no olho do furacão, pouco importa as estatísticas; sentem na pele o que os técnicos tentam explicar. O parecer técnico não consegue, por exemplo, decodificar a revolta propiciada pelo assassinato de Levi Monteiro Reis, um jovem negro de 22 anos executado sumariamente por agentes da polícia civil em Cajazeiras. Segundo familiares, o assassinato aconteceu quando o rapaz estava em uma comemoração junto a um grupo de jovens que estava fumando erva quando policiais civis chegaram já atirando. Uma bala perfurou o coração do rapaz, que não resistiu e morreu. Levi foi visto sendo colocado na viatura pelos policiais civis, mas o seu corpo foi na verdade levado para o hospital e apresentado como ignorado por policiais militares, apesar de familiares informarem que o rapaz estava com documentos de identificação. A família de Levi denunciou ainda que um amigo do rapaz foi obrigado a mentir em uma das oitivas do inquérito que apura o caso; policiais teriam intimidado o rapaz e induzido-o a mentir sobre drogas e armas plantadas pelos próprios policiais no local do crime. A família e a comunidade de Levi em 19 de janeiro organizaram uma manifestação que foi do Ponto 11 em Cajazeira até a frente da 13º Delegacia de Polícia, onde provavelmente estão lotados os policiais que atiraram em Levi. A família do rapaz está inconsolável. Amigos sentem sua falta... lamentam a perda... Mas para o Estado, Levi é só mais um número, mais um cadáver negro a ocupar as gavetas geladas do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues como “traficante que reagiu a prisão”, figurante de mais um “auto de resistência” forjado pela polícia.
Não negamos aqui que em diversas vezes tenhamos defendido a demissão de Cesar Nunes. A própria Campanha Reaja! pautou essa demanda como um ponto a ser vencido. Por outro lado, medidas reformistas como as mudanças de cargo provocadas na SSP correspondem agora a necessidade de reorganização das forças de governo que apóiam a política de segurança pública em vigor. Não nos arrogamos a nos auto-intitular “especialistas” no assunto, mas tampouco somos ingênuos ao ponto de pensar que uma mudança no quadro funcional da SSP seria capaz de mudar a rota do projeto genocida de segurança em curso na Bahia. Para a comunidade que sobrevive em ruas, favelas e prisões deste estado “é aquilo mesmo, não muda nada!” Para a ferocidade da segurança pública, “foram-se os anéis, mas ficaram os dedos!”
*Lio Nzumbi é graduado em Sociologia na Universidade Federal da Bahia e graduando em Direito, também pela UFBA.

[1] NZUMBI,Lio. A ressocialização e a seletividade sócio-racial como fins da pena de prisão na Bahia. Monografia aprovada como requisito para conclusão do Bacharelado em Sociologia pela Universidade Federal da Bahia-UFBA.Salvador-Ba, 2010. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - como requisito parcial para obtenção do grau do Bacharelado em Sociologia na Universidade Federal - Curso de Ciências Sociais - Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.


[2] 1 Extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, grupo étnico, racial ou religioso. Ex.: o g. de judeus na Segunda Guerra Mundial 2Derivação: por extensão de sentido. destruição de populações ou povos Ex.: uma guerra nuclear resultaria num verdadeiro g. 3aniquilamento de grupos humanos, o qual, sem chegar ao assassínio em massa, inclui outras formas de extermínio, como a prevenção de nascimentos, o sequestro sistemático de crianças dentro de um determinado grupo étnico, a submissão a condições insuportáveis de vida etc.
HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico Houaiss. São Paulo: Objetiva, 2001

[3] Na tentativa desesperada de salvar seu próprio emprego titular da SSP-Ba fez em 10.11.2010 roda de imprensa em hotel cinco estrelas para publicar um tal balanço da segurança publica. Disponível em http://www.ssp.ba.gov.br/noticias/secretaria-de-seguranca-faz-balanco-de-2010-2.html.

[4] Idem

[5] Publicação anual da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde.

[6] Disponível em http://www.institutosangari.org.br/mapadaviolencia/

[7] AZEVEDO, Solange em Cidade amedrontada -Explosão dos índices de criminalidade em Salvador aterroriza a capital baiana, e moradores evitam sair de casa à noite. Disponivel em http://www.istoe.com.br/reportagens/74678_CIDADE+AMEDRONTADA

Isto é, acesso em 25 de janeiro.

[8] Ver em Aumenta o Número de Jovens Negros Assassinados: Esse índice é maior que o verificado em 2005, quando o risco era três vezes maior em relação a jovens brancos. Disponível em http://www.educafro.org.br/noticia.php?id=1299&cat=3&sub=9

[9] Mapa da violência – negro têm 130 vezes mais chances de ser assassinado Disponível em: http://coletivodar.wordpress.com/2010/04/01/mapa-da-violencia-negro-tem-130-vezes-mais-chances-de-ser-assassinado/

[10] Ver vídeo Reaja ou será Mort@! Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=U0C6g__W7iw

[11] Ver vídeo Reaja! Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=3ZR9cjwEGV8&NR=1

[12] SANTOS, Andreia Beatriz Silva em Morte por causas externas: um estudo sobre a identificação da raça/cor da pele no Instituto Médico Legal de Salvador/Bahia, 2007. Disponivel em http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=136137

[13] “FRAUZINA, Ana Luiza advogada mestra em Direito e ativista da organização negra Enegreser em texto que resume a sua dissertação de mestrado intitulada ‘Corpo negro no chão: o sistema penal e o projeto genocida do Estado brasileiro”. Irohim – Comunicação e articulação política a serviço dos afro-brasileiros .Brasília, ano XI, n 16, abril/maio 2006

[14] Ver Duarte, Rebeca Oliveira em Genocidio do Povo Negro: força da erxpressão ou expressão da força? Disponível em http://www.slideshare.net/observatorionegro/genocdio-do-povo-negro

[15] Ver o discurso da Socióloga Vilma Reis na CPI da Violência Urbana disponível em http://www.youtube.com/watch?v=ne6ou89YXWk.

[16] Ver Walê, Hamilton Borges em Operação Saneamento I e II e o Cortejo de defuntos do Governo do Estado da Bahia disponível em http://hamiltonbwale.blogspot.com/2010/03/operacao-saneamento-i-e-ii-e-o-cortejo.html. Também Prega-se o racismo, a muralha e a servidão disponível em http://www.irohin.org.br/onl/new.php?sec=news&id=5018 e http://hamiltonbwale.blogspot.com/feeds/posts/default?orderby=updated



[17] Nzumbi, Lio. Desafios para o enfrentamento ao genocídio como política de Estado disponível No jornal Irohin em Genocidiohttp://www.irohin.org.br/onl/new.php?sec=news&id=4688

[18] Nzumbi, Lio. O Genocídio Negro como política de Estado. Disponivel no site da Associação Brasileira de Pesquisador@s negr@s-ABPN em http://www.abpn.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=329%3Ao-genocidio-negro-como-politica-de-estado&catid=25%3Aartigos&Itemid=25&lang=pt

[19] Ver neste sentido o filme “Quanto vale ou é por quilo?” “Adaptação livre do diretor Sérgio Bianchi para o conto "Pai contra Mãe", de Machado de Assis, Quanto Vale ou É Por Quilo? desenha um painel de duas épocas aparentemente distintas, mas, no fundo, semelhantes na manutenção de uma perversa dinâmica sócio-econômica, embalada pela corrupção impune, pela violência e pelas enormes diferenças sociais. No século XVIII, época da escravidão explícita, os capitães do mato caçavam negros para vendê-los aos senhores de terra com um único objetivo: o lucro. Nos dias atuais, o chamado Terceiro Setor explora a miséria, preenchendo a ausência do Estado em atividades assistenciais, que na verdade também são fontes de muito lucro. Com humor afinado e um elenco poucas vezes reunido pelo cinema nacional, Quanto Vale ou É Por Quilo? mostra que o tempo passa e nada muda.” Sinopse disponível em http://www.interfilmes.com/filme_15155_quanto.vale.ou.e.por.quilo..html

[20] Disponivel em http://www.educafro.org.br/noticia.php?id=1299&cat=3&sub=9

[21] Correio on line. Disponível em : http://www.correio24horas.com.br/noticias/detalhes/detalhes-3/artigo/miseravao-bahia-tem-veiculo-similar-ao-popular-caveirao-do-rio-de-janeiro/

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Policiais comandam grupos de extermínio em todo o país (O Globo)


http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/01/08/policiais-comandam-grupos-de-exterminio-em-todo-pais-revela-ouvidor-de-direitos-humanos-923456852.asp

Policiais comandam grupos de extermínio em todo o país, revela ouvidor de direitos humanos

BRASÍLIA - Vigilantes contratados por grupos de extermínio, comandados por policiais. Mortes em série de adolescentes na tríplice fronteira. Execuções sumárias de homossexuais no Nordeste do país. Omissão de investigadores diante de mães desesperadas. O retrato da violação de direitos humanos, escondido sob inquéritos nebulosos ou inacessíveis até mesmo ao Ministério Público, fica estampado por centenas de denúncias que chegaram nos últimos três anos à Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos, revela reportagem publicada na edição do GLOBO deste domingo. Em pelo menos seis estados - Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Goiás, Mato Grosso e São Paulo -, a existência de grupos de extermínio está caracterizada, de acordo com o ouvidor Fermino Fecchio Filho.

Catalogadas em Brasília, as denúncias de brasileiros sem rosto conhecido ou notícias que se perdem no turbilhão de casos de omissão ou abuso de autoridade levaram o ouvidor a concluir que os grupos de extermínio estão disseminados pelo país. Segundo ele, as violações aos direitos humanos são alimentadas por duas falhas estruturais do sistema: a negligência do Judiciário e o corporativismo policial.

---- Grupo de extermínio é geral, é no Brasil inteiro. Não tem grupo de extermínio se não tem polícia envolvida. O que mais choca são os autos de resistência, seguida de morte. Você não tem laudo de local, não tem laudo de balística. A maior causa mortis é a caminho do hospital, mas ele já está morto. Quando você consegue um laudo, vê que são pessoas que morreram com 12, 20 tiros. Que socorro foram prestar? Foram desmanchar o local do crime --- afirma o ouvidor.

Omissão policial em Luziânia (GO)
Em Maceió (AL), mais de 30 moradores de rua foram assassinados apenas no ano passado. Para o governo do estado, todos foram vítimas de disputas do tráfico. Ao analisar caso a caso, com o apoio da Força Nacional de Segurança, o ouvidor chegou a outra conclusão:

- Um ex-PM é responsável por duas dessas mortes. Na morte de quatro deles tem dois investigadores da Polícia Civil envolvidos. Tem um vigilante responsável por três mortes. Vigilante é terceirização de execução - afirma.

Na última terça-feira, a morte de Paulo Vitor de Azevedo completou um ano. O jovem de 16 anos foi uma entre as vítimas do assassino serial que aterrorizou a cidade de Luziânia (GO) em 2010. Lá, o caso é de omissão e reforça a crise da segurança no entorno de Brasília, uma das regiões mais violentas do país. Por mais de dois meses, as mães dos jovens então desaparecidos pediam providências. Porém, do delegado Rosivaldo Linhares Rosa, a mãe de Paulo, Sônia de Azevedo Lima, ouvia uma desastrosa versão:

- "Ele está com o amiguinho. Isso é comum aqui, muita criança desaparece." E o meu filho com o cara fazendo tudo aquilo lá. Se eu pudesse, eu esganava ele (sic). Outro dia, fui à delegacia, e ele teve o desplante de me cumprimentar - contou Sônia, revoltada.

Foi quando o Ministério Público de Luziânia cruzou dados dos inquéritos policiais com os registros de mortes violentas no Instituto Médico Legal para descobrir mais uma violação alarmante: vários cadáveres sequer tinham inquérito policial instaurado.

- Aqui no entorno há muitos casos em que nem a polícia comparece. Quem vai buscar o corpo é a funerária. É assim que está a segurança no entorno. Perto da divisa com a Bahia, o perito aparece lá a cada 20 dias - conta Fecchio.

De acordo com o ouvidor, cidades como Rio de Janeiro e São Paulo também estão sob ameaça constante. Crimes como a chacina de Acari (RJ), com 11 mortes, ou os 40 assassinatos na Baixada Santista (SP), em 2008, nunca foram esclarecidos. Mas as principais violações ocorrem no Nordeste do Brasil.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Caminhada contra a criminalização da pobreza será promovida neste sábado



http://www.atribuna.com.br/noticias.asp?idnoticia=69776&idDepartamento=5&idCategoria=0

Sexta-feira, 10 de dezembro de 2010 - 13h20

Praça das Bandeiras

Caminhada contra a criminalização da pobreza será promovida neste sábado

De A Tribuna On-line

Organizações sindicais e entidades da sociedade civil ligadas aos Direitos Humanos promovem neste sábado, em Santos, uma caminhada pública contra a criminalização da pobreza. A concentração está marcada para 9h30 na Praça das Bandeiras, no Gonzaga. Dali, os participantes seguem até a Aparecida.

A manifestação é uma resposta aos crimes cometidos como forma de opressão às minorias e, principalmente, aos pobres.

Com o objetivo de lembrar o Dia Universal dos Direitos Humanos, celebrado nesta sexta-feira, o encontro é realizado por sindicatos, ONG Educafro, Associação de Moradores da Vila Esperança, Pastoral do Menor, Círculo Palmarino, Coletivo de Mulheres da Baixada Santista e pela Mães de Maio - entidade formada por mães de jovens assassinados em 2006, no episódio conhecido como Crimes de Maio durante ataques de facção criminosa em todo Estado. Há fortes indícios do envolvimento de policiais nesses crimes.

Entre as reivindicações estão o fim do extermínio de jovens na Baixada Santista e a investigação dos Crimes de Maio em esfera federal, visto que o Estado arquivou os processos da série de homicídios sob a alegação de falta de provas. O movimento pede ainda o fim da criminalização do movimento sindical, da violência contra as mulheres e da homofobia.

Ao final do evento, haverá uma aula pública sobre garantia e violação de Direitos Humanos. As entidades estarão abertas a receber denúncias e dar orientações.

Prêmio
As Mães de Maio recebem na próxima segunda-feira, em Brasília, um prêmio nacional dos Direitos Humanos na categoria “enfrentamento à violência”. O título será dado pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos.

domingo, dezembro 05, 2010

Mães de Maio recebem Prêmio de Direitos Humanos



A organização Mães de Maio recebeu a mais alta condecoração do Governo Brasileiro a pessoas e entidades que se destacaram na defesa, promoção, enfrentamento e combate às violações dos Direitos Humanos no país: o Prêmio Direitos Humanos, concedido pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR). O resultado foi divulgado no dia 19 de novembro e a cerimônia de premiação acontece no dia 13 de dezembro de 2010.

Por unanimidade, a Comissão de Julgamento entendeu que, na categoria de “Enfrentamento à violência”, a organização Mães de Maio mereceu a premiação, “pelo exemplo de mobilização social para cobrar do Poder Público o que o Poder Público deve fazer”. Ainda segundo a comissão, “o prêmio a elas tem ainda um efeito multiplicador de fortalecimento das atividades de controle social sobre as atividades da organização policial". Por fim, os selecionadores entenderam que “a repercussão da premiação poderia ajudar a romper o cerco da mídia local que não tem noticiado os lamentáveis acontecimentos de maio”.

A comissão é constituída por personalidades nacionais ou indivíduos com notórios serviços prestados à causa dos Direitos Humanos no Brasil e presidida pelo ministro Paulo Vannuchi. De acordo com a SDH/PR, também fizeram parte do grupo José Geraldo de Sousa Junior, Matilde Ribeiro, Maria Victoria Benevides, Solon Viola e Alci Marcus Ribeiro Borges.

A organização Mães de Maio se propõe a mobilizar familiares e amigos das vítimas dos “Crimes de Maio de 2006 em São Paulo” - extermínio de mais de 400 jovens afrodescendentes e pobres que a polícia chamou de “resposta” aos "ataques do PCC". Com o projeto As mães de maio da democracia brasileira – 5 anos dos crimes de maio de 2006: Verdade e justiça, ontem e hoje!, apoiado pelo Fundo Brasil por meio do edital 2010, a idéia é produzir vídeo e livro com depoimentos de familiares e realizar um ato em maio de 2011, no centro de São Paulo, na luta por verdade e justiça.

Confira a lista completa dos premiados em todas as categorias do 16º Prêmio Direitos Humanos.

MÃES DE MAIO: A DIFÍCIL DEMOCRATIZAÇÃO DO ESTADO GENOCIDA NO BRASIL - por Raúl Zibechi


O sociólogo uriguaio Raul Zibechi escreve sobre a luta das Mães de Maio da Democracia Brasileira



"Meu filho se chama Edson e tinha 29 anos. Foi morto na rua, tinha ido comprar remédios e por gasolina em sua moto. Vivemos na Baixada Santista, num bairro de trabalhadores em São Paulo. Os policiais o seguiram e o mataram a 500 metros do posto de gasolina."

(Tradução de Fausto Brignol).


"Meu filho se chama Edson e tinha 29 anos. Foi morto na rua, tinha ido comprar remédios e por gasolina em sua moto. Vivemos na Baixada Santista, num bairro de trabalhadores em São Paulo. Os policiais o seguiram e o mataram a 500 metros do posto de gasolina. Embora haja contradições nas declarações, o Ministério Público não fez nada e arquivou o caso", disse Débora Maria da Silva, uma mulher de 50 anos, mãe de outras duas filhas.

Edison passou sete anos trabalhando em uma empresa de limpeza, tinha um filho e estava longe do perfil de delinqüente, porém sua pele era escura e vivia em um bairro pobre da Baixada Santista, no litoral do estado de São Paulo. No mesmo dia em que morreu Edison, o PCC - Primeiro Comando da Capital -, organização criminal de narcotraficantes, atacou postos de polícia e queimou vários ônibus. "A cidade ficou paralisada, parecia que tinha havido um terremoto", disse Débora.

A onda de violência na maior cidade da América do Sul, com 20 milhões de habitantes, começou em 12 de maio, depois que o governo da capital trasladou 765 presos de uma prisão de segurança máxima, que ficava a 620 quilômetros da capital. Um dos prisioneiros trasladados era o líder do PCC, Marcos William Herba Camacho, apelidado de Marcola, que dirigia a organização criminal desde a sua cela. Em três dias aconteceram 180 ataques a forças policiais e guardas penitenciários, morrendo 39 agentes e 38 bandidos, segundo estimativas oficiais, e foram incendiados mais de 100 ônibus e automóveis e uma dezena de sucursais bancárias.

Simultaneamente, foram registrados motins em 73 penitenciárias, que foram declaradas em estado de rebelião, das 144 que há em todo o estado. O diário conservador Folha de São Paulo alertou que no necrotério metropolitano haviam ingressado muito mais cadáveres do que informou o governo do estado: 272 mortos, enquanto o governo anunciava 172 mortos oficiais. Isso leva a suposição de que houve dezenas de assassinatos ilegais, que o diário atribuiu a encapuzados, que deveriam ser policiais. Em 24 de maio, quando ainda não havia terminado a repressão, as autoridades admitiram que das 300 vítimas reconhecidas somente 79 teriam relações com o crime organizado (1).

Naquele mesmo dia, a Anistia Internacional disse que estavam operando esquadrões da morte integrados por policiais, cujas vítimas somaram-se "aos cerca de 9 mil assassinatos perpetrados pela polícia brasileira, em sua maioria categorizados como casos de "resistência seguida de morte", sem investigação judicial, registrados entre 1999 e 2004" (2). Muitos acusaram o governador Claudio Lembo. A revista Exame se queixava de que a violência gera gastos equivalentes a 10% do produto interno bruto. O presidente Lula foi um dos primeiros a por o dedo na ferida: "O problema é a sociedade brasileira, estamos colhendo o que foi semeado neste país" (3).

NEM JUSTIÇA NEM LEI

"Algumas mães que tinham filhos que foram mortos pela polícia, os quais não tinham relação com a criminalidade, decidimos enfrentar o estado, porque é quem tem o controle da segurança. Como estávamos em período de eleições não queriam mostrar debilidade e decidiram enfrentar a raiva da população que queimou os ônibus, matando os jovens pobres", disse Débora. "Quando me dei conta que as mortes dos jovens aconteciam todas da mesma maneira e que eram todos trabalhadores, comecei a buscar as outras mães. Eles banalizaram as mortes porque desde acima lhes pediam números. Fiz um trabalho de formiga, visitando as casas das mães; muitas tinham medo e não queriam falar".

Em julho daquele mesmo ano começaram a reunir-se três mães para visitarem as delegacias policiais, conhecer os motivos das mortes e entrevistar as autoridades. Um ano depois das mortes, realizaram uma manifestação e uma missa, com cerca de mil pessoas com cartazes que diziam: "Bandidos são aqueles que matam inocentes". A maior parte dos mortos viviam na Baixada Santista. "O Estado arquivou todos os casos e não processou nenhum policial". Os números são muito claros: o Estado admite que houve 493 mortos por armas de fogo entre 12 e 20 de maio, dos quais o PCC matou 47. "Portanto, a polícia matou 446 pessoas", concluiu Débora.

Conseguiu demonstrar que a polícia havia mentido no caso do seu filho Edson e pôs em evidência as contradições no expediente policial. "Eles disseram que a rádio da polícia estava desligada, mas eu demonstrei o contrário". O mais doloroso - explica - foi que lhe fecharam todas as portas, porque o Estado arquivou todas as causas. Só lhe restou juntar-se com outras mães, esforçar-se por compreender uma situação que a desorientava e trabalhar para que isso não voltasse a acontecer.

Primeiro, decidiram chamar-se Mães de Maio e organizaram a associação "Mães e Familiares de Vítimas de Violência da Baixada Santista". Com o tempo, juntaram-se a elas pessoas que, inclusive, tinham sido afetadas pela ditadura militar e que não tinham tido força para reclamar por seus familiares, e quando elas apareceram se animaram a denunciar o que tinha acontecido décadas atrás. "Agora somos 17 mães só na Baixada e mais 4 em São Paulo. Já temos grupos em 13 estados, que são de familiares de pessoas que foram afetadas pela Polícia Militar", disse com orgulho. Trabalham com a "Rede Contra a Violência", do Rio de Janeiro e com mães do Espírito Santo, Minas Gerais, Belém, Pará, Acre e Pernambuco - entre os estados mais importantes.

Quando fala, ou mesmo quando se agita, Débora encontra certa calma: "Nossas reuniões são muito dolorosas, choramos, sentimos muita angústia porque a impunidade é o que dói mais, a gente cria um filho que é morto pelo Estado. Uma mãe não é morte, é vida. Nas reuniões da gente não aceitamos o que aconteceu, choro quando vejo uma foto do meu filho. Eu faço tratamento para depressão. Sou viúva porque meu marido morreu de maneira parecida com a morte do meu filho... E tenho um irmão desaparecido". Pelo que se ouve no Fórum Social da Bahia, a declaração de Débora parece ser a realidade de muitas famílias brasileiras.

GENTE QUE SOBRA

"O Estado extermina os pobres e negros favelados por que é mais fácil matá-los do que dar-lhes educação e saúde, porque para eles os pobres sobram. Os rapazes negros são os mais vulneráveis. A política de segurança deste país é uma política de extermínio, eles preferem cárceres a escolas. Aos jovens é aplicada uma figura que é a "resistência seguida de morte", o auto da resistência, que não existe no Código Penal", diz uma Débora politizada pela sua experiência de vida.

No entanto, não são somente opiniões de uma mãe sofrida. O livro "Crimes de Maio", publicado pelo CONDEPE (Conselho Estatal de Defesa da Pessoa Humana, de São Paulo), uma comissão independente integrada por membros do Ministério Público Federal, o Conselho Regional de Medicina, a Defensoria Pública (Cremesp) e várias entidades defensoras dos direitos humanos, chega a conclusões similares às de Débora.

Desiré Carlos Callegari, presidente do Cremesp, afirma que entre os mortos de maio houve maioria de homens (96,3%) e de jovens (45% tinham entre 21 e 31 anos; 16,5% entre 31 e 41 anos). Cada morto recebeu uma média de 5,8 disparos no dia 15 de maio. Dos 493 mortos, 43 foram vítimas de delinqüentes (23 policiais militares, 3 policiais civis, 3 guardas municipais, 9 agentes penitenciários e 4 cidadãos comuns. Dezessete foram presos que se haviam rebelado e 109 morreram em enfrentamentos. Porém, 87 foram mortos por assassinos não identificados "com indícios de execução com participação policial" (4).

O perito criminal Ricardo Mollina de Figueiredo, membro da comissão independente, analisou os casos rotulados como "resistência seguida de morte", ou seja, 124 mortos na semana de 12 a 20 de maio. O estudo de todos os casos revela: que na maioria dos casos as vítimas foram atingidas em regiões de alta letalidade; que os disparos foram feitos de pouca distância e que a maioria dos disparos foram feitos de cima para baixo.

Isso permite assegurar que "a combinação desses fatores aponta para uma situação compatível com execução e não com tiroteio. Em uma situação de confrontação seria altamente improvável que houvessem os três casos assinalados acima, o que nos permite dizer que houve execuções em 60 a 70% dos casos analisados" (5).

A Defensoria Pública de São Paulo disse mais ou menos a mesma coisa. Pedro Giberti, Subdefensor Público Geral, denuncia que houve desvio de conduta e abuso de autoridade. O pior é que esses elementos "não se transformaram, até o presente, em denúncias, sendo sepultados na fossa comum do arquivo, onde jaz a impunidade" (6).

Graças a essa comissão e ao trabalho das Mães de Maio, ficou na opinião pública a certeza de que houveram muitas execuções sumárias. A segunda conclusão, disse o próprio Estado: uma vez mais, ganhou a impunidade. A questão é grave porque em São Paulo os assassinatos voltaram a aumentar depois de dez anos. Nas periferias e nas cidades do interior e do litoral a violência segue crescendo. Na Baixada Santista, em um só ano os assassinatos subiram a 37,7%.


UM ESTADO GENOCIDA


Compreender como pode estar acontecendo tudo isso em um país que aspira a ser uma referência mundial, onde impera uma democracia já faz vinte anos, que conta com um governo progressista como o de Lula e que vai organizar os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo, demanda em sondar em várias direções.

Rafael Dias, da ONG Defesa Global, acredita que no Brasil existe um Estado genocida porque "nunca houve uma ruptura entre o Estado da escravidão e o Estado moderno e temos agora um Estado elitista que funciona através da violência para separar os índios, os negros, os pobres, que são considerados com ameaças, como classes perigosas" (8). Em sua opinião, é uma questão de Estado, não de Governo". Por isso, nada mudou com o Governo instalado em 2003. "Agora temos o modelo de militarização das favelas, porque se segue considerando o pobre como um perigo permanente e este é a lógica da segurança pública".

Os membros do governo seguem tratando os favelados como lumpen, pessoas que estão fora da sociedade, disse Rafael Dias. "O governo não compreende a situação dos mais pobres, porque como não estão organizados em sindicatos nem em partidos, não formam parte do projeto político e acreditam resolver o problema aplicando políticas compensatórias, como o Bolsa Família. Estamos repetindo os três eixos que haviam durante a escravidão, o tríplice P: pão, pau e pano" (9).

Maurício Campos é engenheiro e trabalha na Rede Contra a Violência, do Rio de Janeiro, que nasceu em 2003 durante uma série de mobilizações das favelas contra a violência policial. "Nosso trabalho consiste no acompanhamento jurídico das pessoas que sofrem violência. A principal dificuldade para trabalhar nas favelas é a violência do Estado, o medo, os massacres, já que as pessoas que fazem trabalho permanente estão expostas às mesmas ameaças que atemorizam a população pobre" (10). Acredita que o massacre de Acari, em 1990, no Rio, quando mataram 11 jovens provocou uma mudança na sociedade já que "foi a primeira vez que houve uma grande reação coletiva dos familiares das vítimas".

Campos sustenta que não se pode fugir do problema da "relação econômica entre o crime organizado e a polícia, já que os delinqüentes não querem que se faça nenhuma denúncia contra, porque eles acertam com a polícia através de propinas. Para os ativistas sociais, a polícia é o primeiro problema, porque ela sempre ataca as organizações sociais". E acrescenta que "a violência contra os favelados vem crescendo porque a elite brasileira é a pioneira no mundo para atacar os pobres antes que se organizem. Em outros países, a violência da elite é reativa, porém aqui é preventiva, porque temos uma burguesia muito capaz, a mais lúcida da América Latina, contando com um aparato de dominação, como a Rede Globo, que você não vê em outros países".

O grande problema do tráfico de drogas, em sua opinião, é que "é um articulador de todas as atividades criminais, é um grande catalisador de toda a atividade ilegal". Por outro lado, "o aumento das lutas nos anos 70 e 80 foi liquidado com a repressão sob a ditadura, porém, quando retornou a democracia, a repressão direta foi freada e começou a criminalização dos pobres. É um processo incontrolável, porque o aparato policial tem uma autonomia incrível, ao ponto de nenhum governo se atrever a enfrentá-lo".

Este é um dos pontos chaves: a mudança social está vetada para a maioria pobre, negra e jovem. "Se houvesse um movimento social forte, muitos desses jovens deixariam de ter como referência o crime e se relacionariam com as lutas sociais. Os jovens são tragados por um processo, eles não elegem o crime, simplesmente está aí, e às vezes querem vingar-se da polícia, porque não há justiça, nem há organização social, nem guerrilha, e a única saída é entrar no tráfico", conclui Campos.

Não só os ativistas sociais tem este tipo de análise. Vale a pena ouvir uma das vozes mais importantes do lado conservador, pela boca de um dos mais altos cargos que teve de enfrentar o crime organizado em São Paulo, o ex-governador Claudio Lembo.

No dia em que Lembo se despediu de seu cargo, em 31 de dezembro de 2006, concedeu uma entrevista à Folha de São Paulo, em que falou sobre os agitados dias de maio: "Na crise do PCC, figuras da minoria branca queriam a lei do talião. Queriam que matassem a todos, para preservar a eles, os da minoria branca. Isso foi o que mais me irritou. Estávamos em um momento extremamente difícil e tínhamos que mostrar que o Estado pode vencer dentro da lei. Me telefonavam, e uns poucos viram falar comigo" (11).

Lembo é um conservador que agora pertence ao partido Democratas (DEM) e que teve cargos ministeriais em São Paulo durante a ditadura militar. Perguntado pela jornalista sobre o que pedia a minoria branca, foi claro: "Que a polícia saísse às ruas, de noite, e realizasse execuções". Nunca disse quem são essas pessoas que queriam vingança, mesmo que nunca tivessem sido diretamente afetados pela violência. Porém, é claro que pertencem a essa minoria de ricos que utilizam o Estado para seu exclusivo benefício.

Em pleno conflito, Lembo disse que a violência só terminará quando a minoria branca mudar a sua mentalidade. "Temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa. O bolso dessa burguesia tem que se abrir para sustentar a miséria social brasileira no sentido de criar empregos, de que haja mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações". "Em que sentido são responsáveis?", pergunta a jornalista. "Na formação histórica do Brasil. Quando os escravos foram libertados, quem recebeu a indenização foi o amo, não os libertados, como aconteceu nos Estados Unidos. É um país cínico".

Se isso é o que pensa e sente um homem conservador, advogado e professor universitário de quase 80 anos, governador encarregado de reprimir a criminalidade e de alguma maneira membro dessa elite que critica, o que podem sentir os jovens de 15 a 18 anos, pobres, negros, desocupados, sempre perseguidos?

Débora o explica a seu modo: "O pobre não tem direito de chegar ao poder. Isso é para os filhinhos de papai".

Notas:
1. "Investigam atuação de grupos de extermínio em São Paulo", AFP e DPA, 24 de maio, São Paulo.
2. Idem.
3. Agência Reuters, São Paulo 19 de maio de 2006.
4. Agência Carta Maior, São Paulo 17 de fevereiro de 2007.
5. Idem.
6. Idem.
7. Mães de Maio, http://maesdemaio.blogspot.com/.
8. Entrevista a Rafael Dias.
9. En portugués: pan, palo y paño (tela).
10. Entrevista a Maurício Campos.
11. Folha de São Paulo, 31 de dezembro de 2006, entrevista de Mônica Bérgamo.
12. Folha de São Paulo, 18 de maio de 2006, entrevista de Mônica Bérgamo.

Web site: www.argenpress.info Autor: Raúl Zibechi (IRCAMERICAS)

quinta-feira, novembro 25, 2010

Crimes de Maio podem ser julgados na esfera federal

Transferência de competência será solicitada pela PGR ao Superior Tribunal de Justiça


RENATO SANTANA
DA REDAÇÃO – A TRIBUNA – 25/11/2010

A Procuradoria-Geral da Republica (PGR) vai pedir ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) a transferência de competência, a chamada federalização, dos inquéritos e processos arquivados envolvendo nove homicídios ocorridos em 2006, os chamados Crimes de Maio. O anúncio foi feito pela subprocuradora Déborah Duprat durante a reunião do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) ocorrida em Campo Grande (MS). A federalização é um dispositivo constitucional. Sua função é transferir da esfera estadual processos e inquéritos, arquivados ou não, para a esfera federal. Há vários motivos pelos quais o pedido é feito, entre eles, quando o Judiciário arquiva investigações precocemente ou com falhas. A declaração da subprocuradora surpreendeu um dos autores do pedido de federalização, o defensor público de Santos e São Vicente, Antônio Maffezoli. Além dele, também defendia essa medida a ONG Justiça Global. "Eu não estava tão otimista. O acórdão (publicação da decisão do julgamento) do primeiro caso de federalização, o do Manoel Mattos (defensor de direitos humanos morto por grupo de extermínio no nordeste), não saiu ainda", disse. Presente à reunião, Maffezoli explicou que o caso de Mattos é fator condicionante para a transferência de competência dos Crimes de Maio por ser o primeiro e definir quais são os termos observados pelo STJ para deferir ou não o pedido. Os Crimes de Maio representam os assassinatos, cometidos por grupos de extermínio ou em ocorrências de resistência seguida de morte da Polícia Militar, de mais de 500 civis, durante a semana de 12 a 21 de maio de 2006, em represália aos ataques da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).

ARGUMENTOS

Segundo o defensor público, a subprocuradora argumentou que o caso dos assassinatos da Baixada Santista se adaptam ao dispositivo federal e que será apresentado. Apesar de não querer se antecipar, Déborah disse, ainda de acordo com Maffezoli e em resposta aos questionamentos feitos por conselheiros, que é completamente possível federalizar casos arquivados. Sobretudo quando as entidades e familiares envolvidos não confiam no Ministério Público. "Temos diversas testemunhas que não querem falar para a Polícia Civil ou promotoria locais. Não se sentem respaldados. Para se ter uma idéia, o MP pediu para as mães que levantassem provas", ilustrou o defensor público. A subprocuradora lembrou ainda que não há recurso contra arquivamento judicial no Brasil, o que intensifica o clamor da Procuradoria da transferência de competência.

OPERAÇÃO DE GUERRA

Para concretizar a federalização, uma verdadeira operação de guerra será organizada pelo Conselho Nacional dos Direitos Humanos. Estratégias serão traçadas nas mesmas proporções do caso Manoel Mattos. A primeira medida tomada foi a formação de uma comissão para acompanhar junto ao STJ o andamento do pedido. Mas ela não ficará apenas em Brasília. A comissão virá a Santos para questionar o Judiciário, MP e as autoridades policiais sobre o arquivamento dos processos através das falhas apresentadas nos inquéritos. Débora Maria da Silva, líder da organização Mães de Maio, esteve na reunião e disse estar muito satisfeita: "Meu filho foi enterrado com os projéteis no corpo. Isso jamais poderia ter acontecido. Só em âmbito federal isso poderá ser reparado".

sábado, novembro 06, 2010

Homem é assassinado com oito tiros na Aparecida, em Santos (TV Tribuna)

http://www.tvtribuna.com/videos/?video=4795


http://www.tvtribuna.com/noticias.asp?idnoticia=21487&idDepartamento=5&idCategoria=0

Polícia

Homem é assassinado com oito tiros na Aparecida, em Santos




Créditos: Reprodução / TV Tribuna

Um homem de 21 anos foi morto com cerca de oito tiros no final da noite desta sexta-feira, em Santos. O crime aconteceu no momento em que ele aguardava a namorada descer do apartamento onde mora, na Rua Frei Francisco Sampaio, no bairro da Aparecida. Testemunhas disseram que quatro homens, um deles armado, saíram do local momentos depois. A polícia desconfia que a vítima esteja envolvida com o tráfico de drogas, já que porções de maconha foram encontradas no veículo, e que ele tenha sofrido uma execução sumária.

Às 22h40, conforme registro da Polícia Civil, José Mário de Oliveira, como foi identificado, aguardava dentro do carro que conduzia, um Chevrolet Agile, a namorada. Os dois sairiam para jantar naquela noite. No momento em que ela descia as escadas do edifício de três andares onde mora, estampidos de tiros foram ouvidos. Assustada, voltou para o apartamento.

Instantes depois, a mulher desceu e encontrou o namorado ferido dentro do veículo. A polícia foi imediatamente acionada, assim como o serviço de resgate, que encaminhou-o para o Pronto Socorro da Zona Leste, onde morreu.

Segundo apurado, testemunhas dos fatos disseram ter visto quatro homens saírem de um outro carro, também Chevrolet, mas agora um Meriva de cor preta. Eles se aproximaram do veículo de José e dispararam contra ele. Os suspeitos fugiram sem deixar pistas do paradeiro.

Execução

A Polícia Civil esteve no local do crime na mesma noite. Investigadores conseguiram obter a informação de que o homem morto tinha algum envolvimento com o tráfico de drogas e que ele supostamente estava devendo determinada quantia aos acusados do crime.

No carro, registrado no nome da namorada, onde ele foi atingido pelos disparos, a perícia encontrou um tablete de maconha. No hospital, os médicos, por sua vez, localizaram outra porção da mesma droga, desta vez escondida sob a camiseta dele.

Todo o material foi apreendido e levado para investigação. O caso foi registrado na Central de Polícia Judiciária. Ainda não há informações sobre os suspeitos.

As informações são de A Tribuna On-line e TV Tribuna.

terça-feira, outubro 26, 2010

Repórter de A Tribuna recebe prêmio Vladimir Herzog

http://www.tvtribuna.com/noticias.asp?idnoticia=20703&idDepartamento=5&idCategoria=14



Créditos: Fernanda Luz / A Tribuna


O repórter de A Tribuna, Renato Santana, recebeu na noite desta segunda-feira, em São Paulo, o troféu na categoria jornal da 32ª edição do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. O jornalista foi o vencedor pela série de reportagens Crimes de Maio, publicada em A Tribuna entre os dias 25 e 30 de abril deste ano.

Santana recebeu o prêmio das mãos de alguém especial. Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog, assassinado em 1975 nos porões da ditadura militar.

Emocionado, declarou estar feliz e disse que a conquista representa mais que um grande prêmio. ´´É a luta pela liberdade e contra o facismo´´.

O autor das matérias, que denunciaram a ligação dos atentados ocorridos em 2006 com a existência de grupos de extermínio, fez ainda um agradecimento a Carlos Conde, editor-chefe de A Tribuna, a quem atribuiu coragem por incentivar a publicação de reportagens de grande repercussão.

O repórter fez agradecimentos à família e a amigos, especialmente às Mães de Maio, mulheres que lutam há anos por notícias de seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina.

Solenidade

A entrega do Prêmio Vladimir Herzog aconteceu diante de uma plateia lotada, no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (Tuca).

Estiveram presentes à cerimônia o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, José Augusto de Oliveira Camargo, representantes da Regional Baixada Santista e Vale do Ribeira do sindicato, além do ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, e do senador Eduardo Suplicy (PT).

Violência

As matérias do repórter Renato Santana tiveram o objetivo de sensibilizar a sociedade e apresentar um balanço após quatro anos dos atentados atribuídos a membros da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e a policiais militares que fazem parte de grupos de extermínio.

A violência gerou um saldo assustador: a morte de 564 pessoas em todo o Estado de São Paulo, sendo 60 na Baixada Santista.

Para elaborar a série, ele precisou entrar em contato com parentes das vítimas e com os próprios sobreviventes do massacre e com policiais envolvidos nos crimes.

Naquele mês de maio de 2006, 21 dias de violência aterrorizaram várias cidades de São Paulo. Um revide aos ataques ocorridos no Dia das Mães, quando vários policiais militares foram mortos por integrantes do PCC.

Ao encontrar parentes e sobvreviventes da violência, Santana vivenciou o drama que se seguiu após os crimes. ´´Eles ainda lutam por justiça e são ameaçados. Os relatos mais dramáticos foram os de quem escapou das chacinas. Essas famílias foram arrebentadas e foi doloroso ficar perto delas´´.

Com a publicação da série, a Assembleia Legislativa implantou uma força-tarefa para resgatar o assunto e promoveu uma audiência pública em Santos, envolvendo todas as partes relacionadas aos espisódios. Por conta disso, a corregedoria da Polícia Militar reabriu as investigações sobre o envolvimento de policiais militares em grupos de extermínio.

O prêmio

O prêmio Vladimir Herzog foi criado pelo Sindicato dos Jornalistas e elege anualmente os melhores trabalhos que denunciam a repressão e o atropelo aos Direitos Humanos. A primeira edição ocorreu em 1978, durante a ditadura militar, com o objetivo de estimular os profissionaisa da Imprensa e jornalistas a denunciar abusos.

O nome da premiação é baseado na memória do jornalista Vladimir Herzog, assassinado nas dependências do DOI/CODI, no ano de 1975, em São Paulo, que virou símbolo da liberdade de imprensa e Direitos Humanos no Brasil.

De acordo com a organização do prêmio Vladimir Herzog, mais de 300 trabalhos de todo o País concorrem a cada ano em onze categorias: Livro-reportagem / Artes / Fotografia / Jornais / Literatura / Rádio / Revista / Teatro / TV – Documentário e/ou Especial / TV – Jornalismo Diário e Imagem de TV.



Fonte: A Tribuna On-line

sábado, outubro 16, 2010

AGENDA LATINOAMERICANA 2011 SERÁ LANÇADA COM HOMENAGEM ÀS MÃES DE MAIO


AGENDA
LATINO-AMERICANA'2011:

«Que Deus?

Que Religião?»

Está na rua, esperando você e sua comunidade!

Agenda: 20 anos de serviço, desde 1992


Próximos lançamentos da Agenda:

- Dia 20 de outubro de 2010, às 19:30h
no Salão de Festas da Igreja São Judas Tadeu - Setor Coimbr, em Goiânia - GO,
com a presença de Zé Vicente.

- Dia 23 de outubro de 2010, às 10:00h
no SESC da Vila Mariana em São Paulo - SP

- Dia 05 de novembro de 2010, às 20:00h
no Centro de Convenções do Colégio Nossa Senhora das Dores em Uberaba- MG,
com a presença de dom Tomás Balduino e Zé Vizente.

Veja a apresentação do tema da Agenda Latinoamericana'2011, por Pedro CASALDÁLIGA
Veja o Índice dos conteúdos da Agenda,
e a visão de conjunto, por José María VIGIL.
Os nomes dos ganhadores dos concursos do ano passado
já estão nas páginas da Agenda Latino-americana'2011, já na rua.
Veja aqui as convocações para novos concursos da Agenda
nos quais participar até 31 de março de 2011.


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sexta-feira, outubro 15, 2010

PARABÉNS RENATO SANTANA: JORNALISTA DA VERDADE E DA JUSTIÇA!



Quinta-feira, 14 de outubro de 2010 - 17h53

Crimes de Maio

Repórter de A Tribuna ganha Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog

De A Tribuna On-line


Créditos: Reprodução
Capa da primeira edição da série Crimes de Maio, publicada no dia 25 de abril

O repórter de A Tribuna Renato Santana foi o vencedor da 32ª edição do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, categoria jornais, pela série de reportagens Crimes de Maio, publicada entre os dias 25 e 30 de abril deste ano.

As matérias tinham o objetivo de sensibilizar a sociedade e apresentar um balanço após quatro anos dos atentados atribuídos a membros da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e a policiais militares que fazem parte de grupos de extermínio. A violência gerou um saldo assustador: a morte de 564 pessoas em todo o Estado de São Paulo, sendo 60 na Baixada Santista.

Para elaborar a série, Santana precisou entrar em contato com parentes das vítimas e com os próprios sobreviventes do massacre e com policiais envolvidos nos crimes.

''Dois anos após os ataques, os crimes foram arquivados a pedido do Ministério Público. Quatro anos depois dos atentados, ninguém havia sido punido. Por isso, a ideia foi a de elaborar reportagens lembrando esses crimes e mostrando como os direitos humanos estavam sendo feridos, como a impunidade reinava nessa questão''.

Naquele mês de maio de 2006, 21 dias de violência aterrorizaram várias cidades de São Paulo. Um revide aos ataques ocorridos no Dia das Mães, quando vários policiais militares foram mortos por integrantes do PCC.

Ao encontrar parentes e sobvreviventes da violência, Santana vivenciou o drama que se seguiu após os crimes. ''Eles ainda lutam por justiça e são ameaçados. Os relatos mais dramáticos foram os de quem escapou das chacinas. Essas famílias foram arrebentadas e foi doloroso ficar perto delas''.

Lição

O repórter debruçou no tema por cerca de um mês e meio, até a a publicação da última edição da série, em 30 de abril. A dedicação a essa missão investigativa fez com que exaltasse a importância da verdadeira reportagem. ''Jornalismo sem reportagem é meio jornalismo'', afirma.

A públicação da série teve resultados. A Assembleia Legislativa implantou uma força-tarefa para resgatar o assunto e promoveu uma audiência pública em Santos, envolvendo todas as partes relacionadas aos espisódios. Por conta disso, a corregedoria da Polícia Militar reabriu as investigações sobre o envolvimento de policiais militares em grupos de extermínio.

''O prêmio tem uma importância especial, por ter sido organizado ainda no período da ditadura militar, em homenagem a um dos maiores jornalistas da história desse País - Vladmir Herzog, assassinado nos porões da ditadura. Essa conquista reconhece a importância do assunto, que é uma ferida para nós''.

A entrega do Prêmio Vladmir Herzog ocorrerá no dia 25 de outubro, às 19h30, no Tuca, Teatro da Universidade Católica de São Paulo.

O prêmio

O prêmio Vladimir Herzog elege anualmente os melhores trabalhos jornalísticos que denunciam a repressão e o atropelo aos Direitos Humanos. A primeira edição ocorreu em 1978, durante a ditadura militar, com o objetivo de estimular os jornalistas a denunciar abusos.

O nome da premiação é baseado na memória do jornalista Vladimir Herzog, assassinado nas dependências do DOI/CODI, no ano de 1975, em São Paulo, que virou símbolo da liberdade de imprensa e Direitos Humanos no Brasil.

De acordo com a organização do prêmio Vladimir Herzog, mais de 300 trabalhos de todo o País concorrem a cada ano em onze categorias: Livro-reportagem / Artes / Fotografia / Jornais / Literatura / Rádio / Revista / Teatro / TV – Documentário e/ou Especial / TV – Jornalismo Diário e Imagem de TV.

Leia as reportagens da série 'Crimes de Maio':

Dia 25 de abril

Quatro anos. E ninguém foi punido

Dia 26 de abril

Polícia nega grupos de extermínio

Dia 27 de abril

Eles morreram. Ficaram as dúvidas

Dia 28 de abril

À noite e disfarçados. Assim agem os justiceiros

Dia 29 de abril

Justiça, não. Violação dos direitos da sociedade

terça-feira, outubro 05, 2010

A LUTA É UMA SÓ: MÃES DE MAIO ENCONTRAM-SE COM MADRES E ABUELAS ARGENTINAS, NOSSAS GUERREIRAS INSPIRADORAS


Foto de uma das obras do Parque da Memória, na Argentina


"A memória guardará o que valer a pena.
A memória sabe de mim mais que eu,
e ela não perde o que merece ser salvo"
Eduardo Galeano

No dia 23 de Setembro ocorreu em São Paulo um encontro realmente histórico! Enquanto muita gente se ocupava apenas com a disputa eleitoral em curso, outros se dedicavam à denúncia da grande mídia comercial brasileira no Sindicato dos Jornalistas, mas quem pôde estar no Auditório Novo da PUC-SP, lotado de estudantes, professores e militantes de diversos movimentos sociais, não nos deixa mentir...

Na ocasião nós, Mães de Maio da democracia brasileira, tivemos a honra de participar de um importante debate sobre o Direito à Memória, à Verdade e à Justiça – Contra o Terrorismo de Estado, junto a algumas das nossas queridas Guerreiras Inspiradoras Argentinas das Madres de Mayo e das Abuelas. Mães e avós das mais de 30.000 vítimas fatais (entre mortos e desaparecidos) da ditadura civil-militar na Argentina (1976-1983), que foram à Luta e seguem Lutando até hoje. Um convite que nos foi feito, muito especialmente, pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Seguridade e Assistência Social da PUC, Observatório de Violências Policiais e Comissão de Mortos e Desaparecidos.

Madres e Abuelas protestam contra o sequestro e assassinato de seus familiares

Para nós foi uma ocasião extremamente especial por diversas razões. Em primeiro lugar, devido ao ânimo e a emoção que nos foram proporcionadas ao conhecer pessoalmente algumas das Mulheres que tiveram importância decisiva na derrota da ditadura civil-militar argentina, e seguem tendo importante atuação dentro da sociedade portenha: as Guerreiras Estela, Lita, Carmen e Vera. Esta última que é xará de nossa companheira Vera Lúcia de Andrade Freitas, que compartilhou a mesa com elas e pôde contar um pouco de nossa recente experiência por aqui.

Vera Lúcia e Débora Maria, das Mães de Maio, encontram-se com Madres e Abuelas argentinas

Em segundo lugar, porque o testemunho de cada uma delas foi uma verdadeira lição de Vida, de Luta, e um grande incentivo para que nós, Mães de Maio do Brasil, sigamos cuidando de valorizar a formação de nossa consciência crítica, pois as Madres e Abuelas deram uma grande aula de História e de Política a todos os presentes, com a grande diferença de que além de procurar estudar elas também fizeram e fazem História, coletivamente!

Vera, das Mães de Maio (à direita), participa do debate com as Madres e Abuelas Argentinas

Em terceiro, pois a exibição do belíssimo documentário sobre o "Parque de la Memória" e sobre o Monumento às Vítimas do Terrorismo de Estado na Argentina apenas reforçou em nós a importância de termos cada vez mais, aqui no Brasil, novos espaços realmente dedicados à preservação crítica da Memória e da Verdade, revelando também o quanto é importante a utilização das diversas Artes para se conseguir avançar na elaboração do Luto frente ao Terrorismo de Estado que segue nos vitimando, e superá-lo por meio da Formação Crítica e da Luta por Justiça e Liberdade. "Recordar é necessário. Construir Memória é construir o Futuro", concluía o documentário.

Finalmente, o encontro também foi muito importante para selarmos um Compromisso com as Madres e com as Abuelas, de que dentro do possível faremos muito mais atividades de intercâmbio e de formação conjunta, tanto no Brasil quanto na Argentina. Espaços como o Parque da Memória e o Monumento em Homenagem às Vítimas do Terrorismo de Estado Argentino devem servir de modelo e de inspiração para outras iniciativas semelhantes aqui no Brasil, como o Memorial às Vítimas dos Crimes de Maio de 2006 que seguiremos lutando para tornar realidade. Assim, poderemos ter cada vez mais espaços onde haja discussão pública sobre a História Brasileira e Latino-Americana e, assim, possam assegurar uma preservação crítica da Memória e uma apropriação efetiva da Verdade Histórica pelos trabalhadores e trabalhadoras pobres do país, tornando-se espaços culturais e formativos fundamentais para o aprofundamento das Transformações Sociais que tanto precisamos.

Débora presenteia as Madres e Abuelas Argentinas com a camiseta das Mães brasileiras

E, para fechar com chave de ouro, ainda pudemos deixar com cada uma das cinco Guerreiras presentes uma humilde Homenagem das Mães de Maio do Brasil, pelo exemplo de Luta, de Consciência e de Radicalidade que essas Madres e Abuelas sempre representaram para nós, inspirando o nome de nosso movimento e significando renovada inspiração a cada novo dia. As camisetas que entregamos a cada uma delas também simbolizam toda a nossa Solidariedade Internacionalista e Inter-temporal. Elas estão convidadas desde já a estarem presentes no triste aniversário de 5 Anos dos Crimes de Maio de 2006, que será marcado por Homenagens e por Luta, assim como nós também queremos muito um dia poder visitá-las na Argentina.

Madres e Abuelas mostram sua Homenagem ao público, selando o Encontro Histórico


A LUTA NÃO TEM FRONTEIRAS DE TEMPO OU DE ESPAÇO!

CONSTRUIR MEMÓRIA É CONSTRUIR FUTURO!

A VERDADE, A JUSTIÇA E A LIBERDADE ROMPEM TODAS AS CERCAS DA HISTÓRIA!

MÃES DE MAIO